Memorial Descritivo
Educação, comunicação e transformação social
Minha trajetória no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) teve início em 2014, quando ingressei no serviço público federal como jornalista. Os princípios que orientam minha atuação profissional, entretanto, começaram a ser construídos muito antes, a partir da minha própria relação com a educação pública e das experiências com comunicação, cultura, educação popular e extensão.
Estudei no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e fui a primeira pessoa da minha família a concluir uma graduação em uma universidade pública. Formei-me em Comunicação Social/Jornalismo pela UFPE, em 2009, e concluí, na mesma instituição, o Mestrado em Sociologia, em 2012. Entre 2005 e 2012, participei de projetos de comunicação, cultura e educação popular desenvolvidos na comunidade do Coque, no Recife. Foi nesse período que comecei a compreender, na prática, a comunicação como direito humano e instrumento de participação e transformação social.
Essa experiência foi a semente de muito do que viria a desenvolver posteriormente no IFPE. A educação pública havia transformado minha própria trajetória e, por isso, trabalhar em uma instituição como o Instituto nunca significou apenas exercer a profissão de jornalista no serviço público. Significou encontrar um espaço em que comunicação, educação e transformação social poderiam fazer parte de um mesmo trabalho.
Barreiros: território, formação e extensão
Quando tomei posse, fui lotada no Campus Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco. Minha entrada no IFPE aconteceu, portanto, por meio de um campus de tradição agrícola e de uma realidade bastante diferente daquela em que eu havia vivido até então. Barreiros foi uma grande escola para mim. O contato com a Mata Sul, região marcada pela monocultura da cana-de-açúcar e por profundas desigualdades, mas também por comunidades rurais, assentamentos e movimentos sociais, ampliou minha compreensão sobre o papel social dos Institutos Federais.
Naquele mesmo período, eu havia iniciado uma segunda graduação na UFPE, a Licenciatura em Ciências Sociais. Durante aproximadamente três anos, conciliei o trabalho em Barreiros com a graduação noturna no Recife, realizando diariamente o deslocamento entre as duas cidades. Ao mesmo tempo em que estudava Sociologia, Antropologia, Ciência Política e Educação, vivenciava no campus e nos projetos de extensão questões relacionadas ao território, às desigualdades, às relações de gênero, à agricultura familiar e aos movimentos sociais.
Foi nesse contexto que, em 2016, coordenei o projeto de extensão “Vozes da Mata: formação de jovens comunicadores e comunicadoras na Zona da Mata Sul de Pernambuco”, baseado na perspectiva da comunicação como direito humano. O projeto promoveu a formação crítica e técnica de jovens por meio de análise da mídia, oficinas de fotografia, fanzine, rádio e vídeo e produção de conteúdos junto à comunidade. Além da coordenação, orientei bolsistas, vivenciando uma dimensão formativa do trabalho técnico-administrativo que sempre me mobilizou particularmente.
O Vozes da Mata retomava, em outro território, princípios que eu havia experimentado nos projetos de educação popular no Coque. A possibilidade de atuar na extensão, mesmo sendo servidora técnico-administrativa, foi uma das experiências que mais me encantaram no IFPE: permitiu aproximar minha atuação como comunicadora da formação de estudantes e do diálogo com comunidades.
Participei também dos projetos de extensão “Cine Campus: uma experiência cineclubista”, “Agroecologia e Feminismo: empoderamento das mulheres camponesas da Mata Sul” e “Flores de Ximenes: agroecologia, campesinato e sustentabilidade”. Na experiência com mulheres agricultoras do assentamento Ximenes, produzi e dirigi o documentário “Flores de Ximenes”, que posteriormente circulou em universidades, cineclubes, movimentos sociais e encontros feministas latino-americanos. Nesse período, também produzi, dirigi e editei o vídeo “Vamos lá comunicar”, vinculado às experiência extensionista com estudantes do projeto Vozes da Mata.
Minha atuação em Barreiros envolveu ainda a fiscalização de contratos de produção gráfica e a participação na organização de diferentes ações institucionais, como a II Jornada de Agroecologia e Agricultura Familiar e VI SEMCITEC, o XXXIII Encontro de Ex-Alunos, a II Semana do Livro e da Biblioteca e o Mês da Consciência Negra. Também produzi, dirigi e editei um documentário sobre os 90 anos do Campus Barreiros, trabalhando a memória institucional por meio dos relatos das pessoas que fizeram parte de sua história.
Embora lotada no campus, já colaborava com a Comunicação da Reitoria em ações sistêmicas. Entre elas, participei da produção do Portfólio Institucional do IFPE, em 2016, atuando com edição, fotografia e texto, e integrei o Comitê Organizador do III Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, em 2015. Essas experiências começaram a ampliar meu olhar do campus para o IFPE como instituição multicampi.
Comunicação sistêmica, audiovisual e o Sou IFPE
Em 2017, fui removida para a Reitoria, no Recife. A mudança ampliou o alcance do meu trabalho e fortaleceu o diálogo entre minha formação em Jornalismo e Ciências Sociais, especialmente na abordagem de gênero, diversidade, justiça social e direitos humanos.
A produção audiovisual tornou-se um dos principais eixos da minha atuação. Uma das experiências mais significativas foi o desenvolvimento e consolidação do “Sou IFPE”, produto de comunicação institucional em cuja concepção, implantação e desenvolvimento tive participação direta. Como produtora e diretora dos vídeos, nos anos de 2017 e 2018 e, posteriormente, em 2022, fui responsável pelo planejamento editorial e pela condução estratégica do produto.
O projeto partia de um princípio que sempre orientou meu olhar: contar o IFPE a partir das pessoas e das transformações que a educação produzia em suas vidas. Por meio de narrativas audiovisuais protagonizadas por estudantes, servidores e servidoras e trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, buscávamos abordar temas relacionados à diversidade, inclusão, equidade, cidadania e direitos humanos.
Esse ponto de partida nunca foi casual. Ao ouvir pessoas cujas trajetórias haviam sido modificadas pelo Instituto, reconhecia algo que também fazia parte da minha própria história: a capacidade da educação pública de abrir caminhos e produzir novas possibilidades de vida. O Sou IFPE tornou-se, assim, uma síntese de diferentes dimensões da minha trajetória: o jornalismo e o audiovisual como linguagens, as Ciências Sociais como forma de olhar para diferenças e desigualdades, os direitos humanos como princípio e a educação pública como possibilidade de transformação.
A repercussão do produto contribuiu para ampliar o alcance e o engajamento dos conteúdos audiovisuais institucionais, e a experiência foi selecionada para apresentação na Reditec 2018, como experiência exitosa de gestão da comunicação do IFPE. Nesse período, também presidi, em 2017 e 2018, a comissão responsável pela produção de vídeos institucionais. Nessa instância, trabalhei no argumento, produção e direção não só do vídeo institucional geral do IFPE, mas também dos campi Afogados da Ingazeira, Barreiros, Belo Jardim, Caruaru, Garanhuns, Ipojuca, Olinda, Recife e EaD.
Formação acadêmica e experiência internacional
No final de 2018, afastei-me das atividades no IFPE, no interesse da Administração, para realizar o Doutorado em Ciências Sociais na Universidad de Buenos Aires (UBA), na Argentina, desenvolvendo pesquisa sobre feminismos e ação coletiva na América Latina.
A experiência aprofundou questões que já atravessavam minha atuação profissional, como gênero, movimentos sociais, desigualdades, representação e direitos humanos, e ampliou meu contato com a produção acadêmica e o pensamento social latino-americano. Nesse período, participei também de atividades de formação relacionadas a essas temáticas, posteriormente aprofundadas em cursos sobre gênero e sexualidade nas Améfricas, pensadoras latino-americanas e pensadoras negras brasileiras.
Minha trajetória acadêmica resultou ainda em produção intelectual e participação em espaços de circulação científica. Sou autora de capítulo no livro “Perspectivas e Reflexões em Sociologia” e apresentei trabalhos em eventos nacionais e internacionais. Em 2017, levei a experiência do Vozes da Mata ao congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS), no Uruguai, discutindo democratização da comunicação e produção de mídia por novos sujeitos. Posteriormente, apresentei resultados da pesquisa de doutorado no Fazendo Gênero, em 2021, no Congresso Internacional PROLAM, em 2024, e em congresso latino-americano de Sociologia, em 2026.
O afastamento representou, portanto, não apenas uma etapa de qualificação acadêmica, mas o aprofundamento de questões que já faziam parte da minha trajetória e que retornaram comigo ao IFPE sob novas perspectivas.
Retorno, gestão e atuação institucional
Ao retornar ao IFPE, em 2022, retomei a produção e direção do Sou IFPE e iniciei uma nova dimensão da minha trajetória profissional, passando a atuar como substituta da chefia do setor de Comunicação. A experiência de gestão acrescentou às competências construídas na produção jornalística e audiovisual outras relacionadas ao planejamento, tomada de decisão, gestão de equipes, articulação institucional, definição de prioridades e resolução de situações de crise.
Passei, assim, a lidar mais diretamente com a dimensão estratégica da comunicação pública: antecipar cenários, avaliar riscos, articular respostas institucionais e pensar a comunicação de maneira integrada às políticas e aos objetivos do Instituto. Paralelamente, continuei participando de processos sistêmicos, entre eles a revisão da Política de Assistência Estudantil do IFPE, em 2022, e a avaliação de trabalhos em eventos como Enext e Connepi.
As questões de gênero, diversidade e direitos humanos continuaram atravessando minha atuação. Participei da organização do IFPE Delas – Ciclo Formativo Gênero em Debate, no qual também atuei como mediadora em roda de conversa sobre Gênero e Sociedade. Mais recentemente, passei a integrar a Comissão Sistêmica de Combate ao Assédio, Discriminações e Violências do IFPE.
Como integrante dessa equipe multiprofissional e representante da Comunicação da Reitoria, participei da construção coletiva do Plano Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação na Administração Pública Federal (PFPEAD) do IFPE 2024/2025. O trabalho permitiu contribuir para transformar em ações institucionais concretas temas que há muitos anos atravessam minha formação e atuação profissional, articulando prevenção, acolhimento, formação, comunicação e direitos humanos.
Em 2024, participei também da Reditec, experiência que ampliou meu olhar para além do IFPE. O contato com profissionais e gestores de diferentes Institutos fortaleceu minha percepção de pertencimento à Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e minha compreensão sobre os desafios compartilhados por instituições presentes em territórios tão diversos. Também participei da Semana de Inovação, ampliando o contato com discussões contemporâneas sobre gestão e serviço público.
Em 2025, assumi a Coordenação-Adjunta de Comunicação do Pronasci, aproximando minha experiência em comunicação institucional da execução de uma política pública voltada à juventude. No mesmo período, presidi a Comissão de Atualização do Banco de Imagens do IFPE e participei da revisão do Manual de Procedimentos e Normatização da Identidade Visual, contribuindo para o fortalecimento das referências institucionais da comunicação.
Ao longo dessa trajetória, também compartilhei conhecimentos e experiências como palestrante, mediadora e facilitadora em atividades dentro e fora do IFPE, incluindo encontros de comunicadores, cursos de pós-graduação, webconferências e oficinas. Em 2026, sigo ampliando minha participação em ações sistêmicas, integrando a organização do Encontro de Comunicadores do IFPE e a coordenação da I Mostra de Ensino do IFPE.
Uma trajetória atravessada pela educação pública
Ao revisitar minha trajetória, percebo um fio que conecta experiências aparentemente distintas: a estudante da escola pública, a primeira pessoa da família a concluir uma universidade pública, a jovem jornalista envolvida com comunicação e educação popular no Coque, a servidora que chegou a um campus agrícola na Mata Sul, a estudante que durante anos percorreu diariamente o caminho entre Recife e Barreiros para cursar Ciências Sociais à noite, a extensionista, a comunicadora, a pesquisadora que foi à Argentina estudar feminismos e ação coletiva na América Latina e, mais recentemente, a profissional que passou a assumir também responsabilidades de gestão.
Essas experiências não constituem trajetórias paralelas. Elas se atravessam. Barreiros modificou minha compreensão sobre território e educação; a extensão aproximou minha atuação técnica da formação de estudantes e comunidades; as Ciências Sociais ofereceram novas ferramentas para compreender questões presentes no cotidiano profissional; o audiovisual permitiu transformá-las em narrativas; o doutorado aprofundou meu olhar sobre gênero, desigualdades e ação coletiva; e a gestão ampliou minha compreensão estratégica da comunicação e da própria Rede Federal.
Nenhuma dessas realizações foi construída individualmente. Minha trajetória no IFPE é resultado do trabalho compartilhado com estudantes, bolsistas, servidores, gestores, comunidades, movimentos sociais e parceiros institucionais.
A educação pública transformou minha vida antes mesmo que eu me tornasse servidora. Talvez por isso eu tenha encontrado no IFPE mais do que um lugar para exercer minha profissão. Encontrei uma instituição em cuja missão acredito e um espaço em que pude aproximar comunicação, educação e transformação social.
Mais de uma década depois de ingressar no Instituto, continuo entendendo a comunicação como um direito e a educação como possibilidade concreta de transformação. Comunicar o IFPE, para mim, é também contribuir para tornar visíveis as pessoas, os territórios, os conhecimentos e as histórias que dão sentido à educação pública.