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Instituto Federal de Pernambuco

Processo de Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC)
Memorial Descritivo

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE PERNAMBUCO

PROCESSO DE RECONHECIMENTO DE SABERES E COMPETÊNCIAS – RSC

Servidor: José Carlos Amaral Silva dos Santos

SIAPE: 2340518

Cargo: Técnico Revisor de Textos Braille


Memorial Descritivo


Trajetória profissional e desenvolvimento de saberes e competências

O presente memorial tem por finalidade descrever a trajetória pessoal, acadêmica e profissional que fundamenta meu pedido de Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), evidenciando como os conhecimentos construídos ao longo da vida foram sendo continuamente ressignificados no exercício do serviço público e, em especial, na atuação desenvolvida no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

Ao revisitar minha trajetória, compreendo que os saberes que hoje constituem minha identidade profissional não foram adquiridos exclusivamente nos espaços formais de ensino, tampouco surgiram apenas após meu ingresso no IFPE. Eles começaram a ser construídos ainda na infância, a partir das experiências vividas como estudante da escola pública, como pessoa com deficiência visual e como cidadão que precisou aprender, desde muito cedo, que a educação seria o principal instrumento para conquistar autonomia, dignidade e participação social.

Nasci e cresci na periferia da Região Metropolitana do Recife, em uma família simples, onde a educação sempre foi compreendida como oportunidade de transformação de vida. Aos doze anos de idade perdi completamente a visão. A deficiência visual trouxe mudanças profundas para minha rotina, mas jamais representou o abandono do projeto de continuar estudando.

Naquele período, a educação inclusiva ainda não ocupava espaço significativo nas políticas públicas brasileiras. Permaneci matriculado na escola comum e concluí toda a educação básica sem qualquer estrutura institucional de acessibilidade. Não havia livros em Braille, recursos de tecnologia assistiva, profissionais especializados ou serviços de apoio pedagógico. Minha permanência na escola somente foi possível graças ao comprometimento de professores que buscavam alternativas para ensinar, ao apoio incondicional de minha família e à solidariedade dos colegas de classe, que compartilharam comigo anotações, leituras e atividades durante toda a trajetória escolar.

Concluí o Ensino Médio no ano de 2000, praticamente na condição de aluno ouvinte. Embora as limitações impostas pela ausência de recursos fossem evidentes, aquele período deixou como principal legado a convicção de que a educação transforma vidas quando existe disposição coletiva para remover barreiras. Essa compreensão acompanha minha atuação profissional até os dias atuais.

Após concluir a educação básica, tive contato, pela primeira vez, com recursos de tecnologia assistiva por meio da Associação Pernambucana de Cegos. O ingresso naquela instituição representou um novo marco em minha vida. Mais do que aprender a utilizar equipamentos ou recursos específicos, passei a compreender que a deficiência não deveria ser entendida como impedimento para a participação social, mas como uma condição que exige a eliminação das barreiras impostas pelo meio.

Na Associação Pernambucana de Cegos tive acesso a cursos ministrados por voluntários que me prepararam para o vestibular, em um período anterior à existência da política de cotas para ingresso nas universidades. Também realizei meu primeiro estágio remunerado, experiência que proporcionou autonomia financeira, amadurecimento profissional e contato inicial com o mundo do trabalho.

Foi igualmente nesse espaço que amadureci minha consciência cidadã. Compreendi que a conquista de direitos somente se torna efetiva quando cada geração assume o compromisso de ampliar as oportunidades para aquelas que a sucedem. Essa percepção despertou meu interesse permanente pelas políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência e pela construção de uma sociedade mais inclusiva.

Em abril de 2004 iniciei uma nova etapa de minha trajetória. Naquele mesmo mês tomei posse em meu primeiro cargo público e ingressei na Universidade Federal de Pernambuco como o primeiro estudante cego do curso de Licenciatura em Educação Física. O desafio era significativo, especialmente em uma área tradicionalmente associada à prática corporal e às atividades visuais. Entretanto, pela primeira vez encontrei uma estrutura institucional que, embora ainda incipiente, buscava oferecer condições para minha permanência na universidade.

Durante a graduação contei com o apoio de bolsistas que auxiliavam na realização de atividades acadêmicas, possibilitando que eu acompanhasse o curso em condições mais equitativas. Essa experiência reforçou minha compreensão de que inclusão não significa tratamento diferenciado, mas oferta de condições para que todos possam desenvolver plenamente suas potencialidades.

Após concluir a graduação, busquei ingressar na carreira docente. Em 2010 participei de concurso público para Professor de Educação Física e, apesar de não obter aprovação, compreendi que precisava investir ainda mais em minha formação. Essa experiência motivou minha especialização em Educação Física Escolar e fortaleceu a convicção de que o aperfeiçoamento profissional deveria acompanhar toda a vida funcional.

Nos anos seguintes fui aprovado em novos concursos públicos, exercendo atividades na Escola da Polícia Militar de Pernambuco e, posteriormente, na Rede Municipal de Ensino de Itapissuma. Essas experiências ampliaram minha compreensão acerca da educação pública, do funcionamento das instituições e das responsabilidades inerentes ao serviço público.

Foi nesse contexto que, em 2016, ingressei no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco para o cargo de Técnico Revisor de Textos Braille.

Minha chegada ao IFPE representou muito mais do que a posse em um cargo público. Representou o encontro entre uma trajetória construída em defesa da educação inclusiva e uma instituição cuja missão institucional dialoga diretamente com os princípios da democratização do acesso ao conhecimento, da formação humana integral e da inclusão social.

Embora tenha sido nomeado para um cargo cujas atribuições formais estão relacionadas à revisão de textos em Braille, minha formação acadêmica, minha experiência profissional anterior e minha vivência como pessoa com deficiência contribuíram para que eu fosse lotado na Pró-Reitoria de Extensão, integrando a Coordenação de Políticas Inclusivas (COPI), setor responsável pela articulação das políticas institucionais de inclusão em todos os campi do IFPE.

Essa lotação modificou profundamente minha trajetória profissional. Passei a atuar em uma dimensão sistêmica da instituição, acompanhando as políticas de inclusão em toda a Rede IFPE e participando diretamente da construção de estratégias voltadas ao fortalecimento da acessibilidade, da permanência estudantil e da promoção dos direitos humanos.

Ao longo desse período, tive a oportunidade de conhecer todos os campi do Instituto Federal de Pernambuco, dialogando com gestores, docentes, técnicos administrativos, estudantes, familiares e representantes da comunidade externa. Essa vivência permitiu compreender que cada unidade possui desafios específicos e que a construção de uma política institucional de inclusão exige escuta, diálogo permanente e articulação coletiva.

Dentre as diversas experiências vivenciadas, considero especialmente significativa a realização do projeto Inclusão em Ação, iniciativa desenvolvida pela Coordenação de Políticas Inclusivas com o objetivo de visitar os campi do IFPE para conhecer suas realidades, compartilhar experiências exitosas e construir soluções coletivas para os desafios enfrentados na promoção da educação inclusiva.

Durante essas visitas, participei de reuniões com estudantes com deficiência, familiares, equipes pedagógicas, coordenadores de curso, gestores e servidores dos NAPNEs, buscando identificar barreiras e construir estratégias que favorecessem a permanência e o sucesso acadêmico desses estudantes. A escuta qualificada dessas diferentes vozes permitiu transformar experiências individuais em ações institucionais mais consistentes.

Outro momento particularmente relevante foi minha participação na articulação das adaptações curriculares institucionais do IFPE. Após a ampliação da política de cotas promovida pela Lei nº 13.409/2016, houve um crescimento expressivo do ingresso de estudantes com deficiência na instituição. Tornou-se necessário estabelecer diretrizes comuns que assegurassem tratamento isonômico entre os diferentes campi, respeitando simultaneamente as especificidades de cada estudante.

Minha própria trajetória como estudante cego contribuiu significativamente para esse processo, permitindo que experiências vividas ao longo de minha formação fossem convertidas em subsídios para a elaboração de orientações institucionais voltadas ao ensino, à pesquisa e à extensão.

Também participei da articulação institucional que resultou na ampliação da presença dos professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) no IFPE. Tratou-se de um processo construído coletivamente, envolvendo diálogo permanente com gestores, diretores de ensino e diferentes instâncias administrativas, sempre com o objetivo de demonstrar que a consolidação de uma política de inclusão exige equipes multiprofissionais capazes de oferecer suporte pedagógico especializado aos estudantes.

Paralelamente a essas ações, participei do fortalecimento dos NAPNEs, dos NEABIs, dos NEGEDs e de outras iniciativas voltadas à valorização da diversidade, compreendendo que a inclusão institucional ultrapassa a perspectiva da deficiência e envolve igualmente o enfrentamento ao racismo, ao machismo, ao capacitismo, ao etarismo e às demais formas de exclusão social.

Foi igualmente no IFPE que encontrei condições para ingressar no Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT). Minha pesquisa e o produto educacional desenvolvidos durante o curso nasceram diretamente das demandas identificadas no exercício profissional, reafirmando a integração entre pesquisa, prática institucional e compromisso social.

Na mesma perspectiva, iniciei, em 2022, o curso de Bacharelado em Direito, motivado pela necessidade de aprofundar a compreensão dos fundamentos jurídicos que sustentam o direito à educação, à acessibilidade e à inclusão, ampliando minha capacidade de contribuir para a formulação e o fortalecimento das políticas institucionais desenvolvidas pelo IFPE.

Ao revisitar essa trajetória, percebo que os saberes e competências construídos ao longo da vida foram sendo continuamente ampliados pela interação entre formação acadêmica, experiência profissional, pesquisa, extensão e compromisso com a defesa dos direitos humanos. Minha condição de pessoa com deficiência nunca constituiu um limite para minha atuação profissional; ao contrário, permitiu desenvolver uma compreensão singular acerca das barreiras enfrentadas por estudantes e servidores, transformando experiências pessoais em conhecimento institucional e em ações concretas voltadas à promoção da inclusão.

Tenho a convicção de que o Instituto Federal de Pernambuco continuará ampliando seu compromisso com uma educação pública cada vez mais inclusiva, diversa e socialmente referenciada. Espero seguir contribuindo para esse processo, colocando minha experiência, meus conhecimentos e minha dedicação a serviço da instituição e da sociedade.

Entendo, por fim, que a trajetória aqui descrita evidencia um processo contínuo de construção de saberes que ultrapassa os requisitos originalmente exigidos para o ingresso no cargo de Técnico Revisor de Textos Braille, refletindo a consolidação de competências compatíveis com os objetivos do Reconhecimento de Saberes e Competências.

Este memorial é parte integrante do processo de submissão de protocolo 2026RSC-REI0094.